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DEFENDENDO JACK BAUER

24h

Como assim defender Jack Bauer? Bauer nunca precisou disso, afinal Bauer não precisa de defesa, a defesa precisa de Jack Bauer. Mas a propósito da visita que mister Sutherland fez ao nosso frágil país, na época da gravação do comercial de uma montadora francesa, muita besteira foi dita e escrita. A maior delas, talvez, tenha sido a de que o seriado 24 horas faz apologia ao método Bush de resolver as coisas. Várias reportagens, incluindo a de uma famosa revista eletrônica de domingo, usaram essa falsa característica da série para ilustrar quem era aquele gringo que admirava o pôr-do-sol de Copacabana.

 

Se há uma coisa que 24 horas não faz é defender a era Bush. Qualquer telespectador que se proponha a acompanhar a série percebe que, ao contrário, há severas críticas à política do governo Bush. Querem exemplos? A ver: de que partido é o presidente mais boa gente da história dos EUA, mister David Palmer? Do partido Democrata, meu amigo. Bush é republicano. Os democratas estão para os republicanos assim como os tucanos estão para os petistas, só que com muito, mas muito mais poder e charme. 

Outro: quem é que está por trás de todo o terrorismo que Jack Bauer enfrenta? Muçulmanos? Colombianos? Não. Americanos, meu amigo. Sim, diferente do que quer pregar Bush, o inimigo não está no reprimido Oriente Médio, mas dentro da América livre. São os mega-boga poderosos e manipuladores donos de petrolíferas e o escambau que arquitetam todos os planos. E não pense você que eles se dão mal no fim, não. Eles não se sujam e acabam sempre escapando, isso quando aparecem.

 

Mais um: na segunda temporada, uma das pessoas que ajudam Jack é um agente do governo de um país do Oriente Médio. O sujeito é discriminado pela CTU inteira e morre tentando salvar seu país de um ataque americano baseado em uma prova falsa. Detalhe: ele é assaltado e morre espancado por cidadãos americanos que percebem em seu rosto traços não ocidentais. Quer crítica mais cruel à era Bush?

 

A favor da teoria de que o seriado é um decalque do modus operandi do governo está o fato de que muitas das situações de risco são resolvidas na base da tortura. De fato, até o próprio presidente David Palmer mandou torturar um integrante do alto escalão federal. Mas quem disse que Bush manda torturar pessoas? Está certo que ele não é lá um anjo de pessoa, mas os casos de tortura que ficaram famosos em seu governo não foram totalmente responsabilidade sua, mas de militares perturbados que, aliás, não são exclusividade americana. E quem não vibrou com nosso heróis nacional, o mothafoca tupiniquim, Capitão Nascimento, fazendo a mesma coisa para o bem comum? Nem Bauer, nem o Capitão ficavam felizes ao recorrer à tortura e suas histórias incluem o drama pessoal de cada um ao enfrentar sua consciência por ter cometido atos inumanos. Serve ou não serve para gerar um debate entre amigos e para aprendermos mais sobre a natureza humana?

 

Em resumo, 24 horas é apenas um seriado, uma obra de ficção. Não tem o interesse de doutrinar ninguém. Tem sim o interesse de ganhar alguns milhões de dólares com entretenimento do bom, ao melhor estilo americano. O dia em que entendermos isso e pararmos de uma vez por todas com intelectualidades inúteis talvez consigamos fazer algo parecido. Enquanto isso, temos de nos contentar com seriados de caminhoneiros, filmes do Didi e novelas do Manoel Carlos.

 

Chloe, por favor, redirecione meu satélite.