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[CINE CAMÃO] A Origem (Inception, 2010)

“Ninfa, doce amiga, fantasia inquieta e fértil, tu me salvaste de uma ruim peça com um sonho original, substituíste-me o tédio por um pesadelo: foi um bom negócio. Um bom negócio e uma grave lição: provaste-me ainda uma vez que o melhor drama está no espectador e não no palco.” (A Chinela Turca, Machado de Assis)

A Origem (Inception, 2010) não traz idéias novas. Sempre esteve tudo aí. E há algum tempo. Machado de Assis, ao ocaso do século XIX, contou uma história rápida e cheia de signos chamada A Chinela Turca (na coletânea de contos Papéis Avulsos). Nela, o Bacharel Duarte, que planeja ir até o baile encontrar sua pretendida Cecília, recebe a visita de um major, um importante achegado, que veio lhe mostrar e ler o romance que acabara de produzir. Duarte percebe que seus planos de ver Cecília estão indo por água abaixo, pois socialmente não pode recusar a visita do major. O major, aparentemente depois de ler o romance, fecha-o e sai, furioso, do escritório de Duarte, que recebe instantaneamente nova visita, dessa vez de supostos policiais, que o acusam de roubar uma valiosa chinela turca. Duarte embarca numa aventura perigosa que vai terminar ciclicamente e eu já contei demais. Contar o final de uma boa história, mesmo tendo cento e tantos anos, ainda pode ser spoiler.

Julio Cortázar, eu duas de suas obras primas, também questiona alguns conceitos de tempo e sonho. O Perseguidor e Continuidade dos Parques são inquietantes, tanto quanto as boas obras fantásticas do início do século passado. Aliás, era uma prática comum aos escritores dessa época, sobretudo aos hispanoamericanos, acordar propositalmente no meio da madrugada para tentar captar um sonho e escrevê-lo. Um truque.

Mas essa resenha é sobre A Origem, não? É. E certamente é o melhor filme de 2010 e um dos meus top 20. Christopher Nolan, que concebeu o roteiro e vem acertando a cada obra que produz, merece um Oscar. Ele conseguiu algo que é dado a poucos: convergir mainstream e underground. A Origem não é um filme fácil, mas não é um filme cabeça. É os dois. Se por um lado temos de DiCaprio, um superstar (que vem consolidando sua capacidade e seu talento a cada escolha acertada que faz), por outro temos a enigmática Marion Cotillard (que mereceu e levou um Oscar, um Globo de Ouro e um Bafta por Édith Piaf – Um hino ao amor). Se numa camada temos uma história linear de ação, noutra temos a subversão da lógica racional (ainda presa à lógica racional, mas isso é outra discussão). Se por um lado temos 148 minutos de filme, por outro há, ao mesmo tempo, uma sensação de que se viu muito em pouco tempo.

Como o músico do conto de Cortázar e o personagem vivido pelo ótimo Gordon-Levitt, sentimos que o tempo passa mais devagar no inconsciente. Como o leitor de Continuidade dos Parques e Dom “DiCaprio” Cobb, não sabemos se aqui é o real. Nesse sentido, A Origem foi além de Matrix. A dúvida, já nos mostra Capitu, é a melhor saída. Curiosamente, em todas as obras que citei aqui, a constante sempre é a capacidade sensorial. Em Cortázar e Machado de Assis temos poltronas de veludo. No filme de Nolan temos carpetes, chuvas e totens.

Perfeição técnica, trilha mais uma vez espetacular do mestre Hans Zimmer, hiperlinks nos nomes dos personagens, atuações milimétricas, easter eggs, tudo isso fez A Origem acontecer. Um filme fantástico em todos os sentidos, imperdível, que deve ser visto nos cinemas e comprado em blu-ray. E, em tempos de 3D, vale lembrar que Nolan recusou usar a tecnologia, para não “distrair-nos da história”. Uma história que não é nova, é verdade, mas o que é novo para o nosso imaginário? Tudo é sabido, sempre esteve lá. A diferença está na arquitetura, na Ariadne que cada autor incorpora para matar o Minotauro. Todas as histórias estão no nosso inconsciente, escondidas, em algum nível quase inacessível. Quase.

HUMMM… PODCUMÊ