COLUNISTA EM CALÇAS CURTAS

Acabo de ler uma coluna/crítica de um tal de João Pereira Coutinho na página da Folha de São Paulo (Ilustrada). O título do texto é “Adultos em Pijamas” e fala sobre o filme que você e eu acreditamos ser um dos maiores de todos os tempos. Se você é assinante UOL ou da Folha de São Paulo, pode ler o texto na íntegra aqui. Se você não é, não está perdendo nada.

Coutinho disse que assistiu a Batman: The Dark Knight e sua conclusão sobre o filme é: Batman e Coringa não passam de “dementes em pijamas que fugiram de um asilo da cidade”. O próprio título da coluna, “Adultos em Pijamas” remete a isso, mas se você arrancar uma camada dessa cebola vai perceber que ele está sacaneando a nós, inadvertidos amantes desta cultura pop que nos cerca.

Adultos em pijamas, está claro para ele, somos nós.

Coutinho começa o texto falando que nada tem contra os vigilantes. Em seguida, faz uma força incrível para colocar, num texto sobre Batman, os filmes, artistas, diretores e atores clássicos que ele considera “intelectuais”. Fala de Ingmar Bergman, Robert Bresson e Renoir como para marcar bem sua intelectualidade. Depois dá um giro sobre os ídolos pop de outrora, Clint Eastwood e Charles Bronson. Ele chega a perguntar “que será feito de Bronson”! Dá para acreditar que o cara escreve sobre cinema e não sabe que Charles Bronson subiu no telhado?!

 

 

Seguindo sua linha de pensamento (?!), Coutinho racionaliza o herói vigilante. Segundo ele, o herói deve obedecer dois requisitos básicos (só dois?! Robôs que são meros robôs seguem três!): o primeiro é existir somente nas telas e não na vida real (dããã!). O segundo é, mesmo nas telas, não vestir-se com collants, máscaras, capas e etc. Ele morre de rir quando vê “um ator, supostamente adulto e racional, enfiado num pijama colorido e disposto a salvar a humanidade das mãos maléficas de um vilão tão ridículo e tão colorido quanto ele”. Bom, para alguém que não consegue distingüir entre fantasia e realidade, para alguém que não consegue aceitar diferentes formas de manifestação cultural que podem não ser as suas, elitizadas, deve ser realmente muito engraçado ver Batman. Sério deve ser assistir ao mais novo filme iraniano do circuito.

Se você acha que João Pereira Coutinho já avacalhou o bastante, leia esta: para ele são motivo de risada mais desopilante os adultos que acreditam em um super-herói e que isso compensa freqüentes brochadas. Tenho de parafrasear Alottoni: quando li isso MINHA CABEÇA EXPLODIU! Que análise mais tendenciosa, mais estapafúrdia, mais limitada e ultrajante essa. O sujeito se encalacrou no seu mundinho erudito. Está com a cabeça enfiada bem no meio escuro, para não ser vulgar, e vem dizer, traduzindo mais ainda, que nerd é brocha? Faça-me o favor… Estou me segurando para não dizer que antes ser brocha do que morder fronha (para usar um recurso textual que ele usou muito na sua coluna, o de dizer que não vai falar da coisa que está falando).

 

 

E ele continua. Chega a dizer, numa tentativa falha e escrota de ser irônico, que Heath Ledger morreu de overdose porque não agüentou de vergonha depois de ver o resultado de seu Coringa. O cara avacalhou definitivamente nessa. Poderia ter parado lá na questão da “ereção falhada” que já estava nojento o suficiente.

E quem foi que disse que na cabeça dos criadores a oposição “simplória” entre civilização e caos, entre Batman e Coringa, é uma metáfora do mundo pós 9/11?! Coutinho, você foi “simplório” ao entender e, mais ainda, ao escrever isso. Nem precisa se “sujar” muito para pesquisar e descobrir que o Batman já existe desde 1939 e o Coringa, desde 1940.

 

Há muitas formas de se pensar os dois, mas quase nenhuma se liga tão diretamente ao terrorismo niilista de que fala Coutinho. Batman e Coringa são personagens muito bem construídos, antagônicos sim, mas num nível muito mais interno e psicológico, basta que se seja capaz de colocar a cabeça para fora da sua bolha de “erudição” e consiga perceber os vários níveis de significado e as várias possibilidades que outros tipos de cultura podem ter.

 

 Coutinho fecha seu texto dizendo que a narrativa do filme é infantil e incongruente. Que a fantasia já é difícil de engolir como tal, imagine sendo tratada de forma realista como foi em Dark Knight. Ele só se esquece – e para alguém que se diz intelectual e escreve para jornais daqui e da Europa isso é inadmissível – de que mesmo em filmes sobre brasileiros se prostituindo em Portugal, espanhóis traficando cocaína ou indianos sofrendo censura social por escolher com quem se casar, mesmo nestes filmes não se está falando de realidade. Trata-se de ficção. Trata-se, em certa medida, de fantasia também. Seja uma produção mais comercial ou “de arte”. O cinema é isso. É aí que está a mágica.

Coutinho disse que um adulto equilibrado vê em Batman e Coringa dois dementes de pijamas. Eu digo: quem não consegue captar os vários níveis de significado, quem não consegue aceitar diferentes formas de pensar, pode se dizer equilibrado, intelectual e erudito, mas em verdade não passa nem nunca passará de um idiota frustrado.

 

 

Marcelo Salgado

 

Em tempo: João Pereira Coutinho não se intitula crítico de cinema (o que percebemos que realmente não teria capacidade de ser). Há críticos de verdade, muito bons, que são colunistas muito mais conscientes, como Mario Abbade, do Almanaque Virtual.   

5 Comentários em “COLUNISTA EM CALÇAS CURTAS”

  1. Gustavo Gutierrez says:

    Acho que um cara que apenas “olha” imagens passando em uma tela, não tem o direito de falar do pijama de ninguem,além de criticar sem conhecer (pelo que parece).

    acho que ele estava comprando pipoca na cena das balsas…só pra resumir em uma cena toda a grandeza da obra…

    humanos erram…por isso eu acho que coutinho está perdoado…

    ps:nerds…antes virgem…agora brocha…

  2. Aí, irmão!

    Sou totalmente solidário nesta causa.

    Veja também o nosso desabafo.

    http://bhqmais.blogspot.com/2008/07/reproduo.html

    Grande abraço,
    Pedro

  3. PP Siruffo says:

    Aê, Marcelo!
    Valeu mesmo a força!
    ;-D

    Grande abraço, irmão!

  4. Ananias, o anão says:

    É uma pena que um texto tão bom quanto este seja usado com um João Ninguém. Não me importo que ele veja referências ao 9/11 em DK, nem mesmo que encare o Batman e o Joker como dementes de pijamas, pois o filme pode ser visto desta maneira (afinal, a arte é o que o expectador enxerga, não o que o artista mostra). Mas ridicularizar quem gosta do que ele não gosta é uma atitude imbecil que não deve ser levada a sério.

    Para mim só há uma explicação: Cavaleiro das Trevas é um dos maiores filmes da história e o babaca resolveu falar algumas salsinhas para fazer sucesso em cima…

    Parabéns Marcelo, grande texto.

Comente!